segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

O Clube do Imperador

Blog de meuamorvirtual :Borboletando, O Clube do Imperador

O Clube do Imperador 

            Assim como uma música apresentada de várias maneiras pode remeter a sensações e emoções até díspares, em uma sala de aula, para a mesma informação ou conteúdo, diferentes professores podem causar reações distintas nos alunos, de acordo com sua postura e interação com a classe, incidindo no aprendizado e no modo como o aluno vai se relacionar com determinando conteúdo, sentindo-se motivado a aprender ou passando a ter ojeriza, a detestar o que está sendo ensinado.

            Deste modo, o professor deve ter consciência de que pode vir a ter um papel muito importante na vida de seus alunos, porquanto seu comportamento e fala ficam muitas vezes gravados em suas memórias por toda a vida.     

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            Dirigido por Michael Hoffman, o filme “O clube do Imperador” (2002), conta a história de William Hundert (Kevin Kline), conceituado professor de História da Civilização Ocidental Greco-Romana na Escola St. Benedict’s, tradicional internato americano, bem como sua relação com uma turma de estudantes adolescentes, especialmente o aluno Sedgewick Bell (Emile Hirsch).

            O filme começa com uma tomada aérea de um hotel de luxo, vista pelo professor Hundert que está em um helicóptero. Já no quarto do hotel, Hundert começa a refletir que, com o passar dos anos, uma das coisas que teve certeza é que o caráter de um homem constrói o seu destino. Pensa ainda que, embora comumente se acredite que a história de vida de uma pessoa possa ser escrita antes de sua morte, há exceções entre os grandes homens da História e ele não é um deles. Considera-se simplesmente um professor que lecionou por trinta e quatro anos e que, um dia, parou.

            Hundert fora um professor totalmente dedicado ao seu trabalho, sua vida girou em torno de sua profissão, de seus alunos e da St. Benedict’s, cujo anseio era vir a ser seu diretor. Sério e disciplinado, procurou transmitir aos alunos, pelos quais era respeitado e temido, além do conteúdo da matéria sob sua responsabilidade, valores éticos e morais pautados nos grandes homens da Grécia e Roma Antigas.
 
 Estava naquele hotel para participar da revanche do “Senhor Júlio César”, evento promovido por Sedgewick Bell, um de seus ex-alunos e, embora não soubesse ao certo porque aceitara o convite, suspeitava que tivesse algo a ver com esperança. A partir daí, começa a lembrar do ano de 1976 na escola St. Benedict’s, um tradicional internato para rapazes onde, para ele, reuniram-se os mais vitoriosos e influentes jovens de uma geração, não obstante ele os tenha conhecido antes disso, como seus alunos.
 
            Uma tomada aérea, mais uma vez, desloca os acontecimentos para o passado: o primeiro dia do ano letivo de 1976. Naquele dia, o professor Hundert, em sua sala de aula, começa a fazer preparativos para a recepção dos alunos: checa as condições dos móveis, alinha as carteiras e deposita um exemplar do livro “A civilização mediterrânea” sobre cada uma delas. Sua sala é decorada com bustos e esculturas de Aristóteles, César, Augusto, Platão, Cícero, Sócrates, entre outros que, para o professor Hundert, foram gigantes da História, homens de profundo caráter, cujas realizações duraram mais que suas vidas. Feita a organização, pára um pouco e se concentra. Depois, vai ao salão nobre da escola para a aula inaugural. Nesta solenidade, o diretor da St. Benedict’s diz aos alunos que as palavras Non sibi ou “não para si” resumem a filosofia da escola: a sabedoria adquirida deve ser usada para ajudar aos outros, tanto quanto a si mesmo e Finis origine pendet, que quer dizer “o fim depende do início”, termos que são o lema da escola e estão gravados no coração dos alunos, sob o brasão bordado em seus uniformes. Logo depois, o professor Hundert recebe sua nova turma de alunos. Na sala de aula, adverte-os de que a grande ambição e a conquista sem contribuição não têm significado. Questiona-os sobre seus possíveis contributos e como a história se lembrará deles.
 
            Todos os anos, Hundert utiliza como recurso didático para a aprendizagem de seus alunos um concurso chamado “Senhor Júlio César” que os desafia com perguntas e atividades escolares sobre a história da cultura romana. O evento, tradiçãoem St. Benedict’s, consiste em duas etapas: a primeira é uma série de testes da qual saem três finalistas e a segunda é uma prova pública onde estes três ocupam o palco do salão nobre para, com a presença de professores, pais e alunos, serem sabatinados sobre Roma antiga. O vencedor é laureado Senhor Júlio César. A tradição é tão forte que Martin Blythe (Paul Dano), um dos alunos da turma de 1976, traz para a escola uma grande responsabilidade: seu pai foi Senhor Julio César e, no primeiro dia de aula, as últimas palavras que lhe disse, antes de deixá-lo na escola, foram a pergunta e a resposta com que venceu o concurso.
 
 
            Por causa do concurso, os alunos do professor Hundert, inclusive o próprio, vestem togas em algumas aulas buscando, de certa forma, experimentar a história. O professor dá aula fazendo perguntas aos alunos para conferir se estão lendo o livro didático adotado.

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Certo dia, chega à classe do professor Hundert o aluno Sedgewick Bell, o mesmo que no início do filme o havia convidado para uma recepção no hotel. Bell é filho de um senador americano e, ao entrar na sala, em tom jocoso, põe em causa o fato de que, se a escola é para rapazes, por que estão usando vestidos. É o primeiro aluno a questionar a metodologia de Hundert e tal fato, além de surpreender a todos, desagrada ao professor que, sem entrar na brincadeira, explica que estão usando togas, espécie de veste solta usada pelos romanos antigos. Acrescenta que a toga era dada aos jovens como sinal de sua passagem da meninice para a idade adulta, em clara sugestão de que o novo aluno deve se comportar como um rapaz. Indica-lhe uma carteira específica, mas Bell a recusa dizendo que está bem no lugar que ele próprio havia escolhido. Isso causa espanto nos demais alunos, acostumados a obedecer sem retrucar. O professor Hundert não aceita, acontece um ligeiro embate e, não obstante à sua vontade, o novato senta no lugar indicado pelo professor que, ainda um tanto desconcertado pela surpresa de ter sido enfrentado, diz que no dia seguinte encenarão a peça “Júlio César” de Shakespeare e que Bell fará o papel de Brutus. 

Durante o almoço, incomodado pelo ocorrido em sua classe, Hundert comenta com uma colega que o novo aluno parece um visigodo. Na encenação da peça, advêm novos embates: Bell choca os colegas, ao afirmar que “aquilo” não tem significado para ele e diz que Brutus, “o mais nobre romano de todos”, segundo o professor Hundert, é um “covardão”. Os alunos riem e o professor, pela segunda vez, está diante de quem o desafia. Para Bell, se Brutus tivesse matado Marco Antônio teria sido imperador e, com este pensamento, deixa claro que despreza a ética, enquanto prioriza a importância de se vencer a qualquer custo. O professor rebate com Sócrates que preferiu ser executado injustamente ao invés de infringir as leis de Atenas às quais jurara obediência pois, para o filósofo, “o importante não é viver, mas viver com retidão”. Bell, então, debocha de Sócrates e de forma irônica o chama de “gênio”.
 
            Bell não se interessa pelas aulas de História que, ao contrário, tem o maior significado para o professor. Dificulta os momentos de estudo dos colegas, usa o uniforme com desmazelo, sempre quebrando regras e contra tudo. Os demais alunos, ao contrário, decoram palavras em latim e passam as tardes estudando em grupo. Apesar de adolescentes, são compenetrados, atenciosos e receptivos a toda a disciplina e ensino escolares. Vestem-se em estilo formal, habitualmente com uma jaqueta que tem o brasão da escola bordado no bolso, camisa e gravata. Na sala de aula, caso desejem fazer perguntas ou tirar dúvidas, levantam a mão ao se dirigir ao professor, de forma respeitosa.
 
            Acostumado a com um simples olhar mandar os alunos arrumarem suas gravatas sem ser contestado, Hundert é surpreendido, enquanto escrevia na lousa de costas para os alunos, com o barulho de livros fechando ao mesmo tempo, brincadeira coordenada por Bell. Chama-o ao quadro e o humilha diante da classe, ao pedir que escreva em ordem cronológica o nome dos imperadores romanos. 

Como o aluno não consegue, diz que até os insetos da sala sabem a resposta. Insiste que ele mencione alguns imperadores, porém Bell faz brincadeiras: ora diz que conhece apenas sete e cita os nomes de anões da Branca de Neve, ora fala que sabe de quatro e elenca os nomes dos Beatles. A sala inteira ri. O professor lhe dá um aviso do sábio Aristófanes: “A juventude envelhece, a imaturidade é superada, a ignorância pode ser educada, a embriaguez passa, mas a estupidez dura para sempre”.

  Para completar, pede à classe que cite alguns imperadores romanos em ordem cronológica. Os alunos, em coro, citam dezessete nomes até que o professor diz ser suficiente e manda o aluno sentar.

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  Por causa deste episódio, Bell é chamado ao escritório do professor. Vai com a gravata desarrumada e insinua que Hundert os faz usar togas porque não é casado. Este lhe diz que procurará seu pai. Mas o encontro com o senador Sedgewick Hyram Bell não foi como Hundert esperava. O pai do aluno parece não prestar atenção, apesar de o professor expor o motivo que o levou a procurá-lo foi o fato de seu filho não se esforçar para aprender a matéria. O senador pergunta qual a matéria ensinada e questiona seu real valor na vida dos alunos. Quando Hundert responde que, através dos grandes homens da história, sua função é moldar o caráter de seu filho, o senador não aprova. Para ele, a função da escola e do professor é ensinar a tabuada, porque o mundo é redondo, quem matou quem, quando e onde. Quem vai moldar o filho é ele, seu pai. Entretanto, telefona para Bell e lhe passa um sermão.
 
            A partir daí o garoto chega na sala de aula cabisbaixo, mas o professor percebe e vai ao seu quarto. Encontra o aluno prostrado, olhando fixamente para o teto e lhe oferece o livro que usou em sua época de colegial. Diz que o primeiro capítulo resume toda a matéria do ano, mas o aluno nem lhe olha. O professor insiste que está lhe emprestando o livro porque acredita que ele pode ser o primeiro da classe e até vencer o concurso. Bell o encara surpreso, embora nada responda. Porém, quando o professor sai, abre o livro e começa a ler.
 
 
            O concurso começa e o professor Hundert lê com especial atenção o texto de Bell. Procura-o para entregar a nota e diz que ele passou. Bell vai se interessando, lendo mais, pega livro emprestado na biblioteca e estuda até durante o almoço. Na pré-classificação, entre os dez colocados, fica em sexto lugar. Para a final, Martin Blythe fica em terceiro lugar com 93 pontos e Bell em quarto com 92 pontos. Para não decepcioná-lo, Hundert reavalia sua nota: inicialmente havia lhe dado A-, entretanto, para que fique em terceiro lugar, garantindo a vaga para a final, corrige sua nota, acrescentando um aparentemente simples traço vertical ao sinal de menos e o transformando em um sinal de mais, ou seja, A+. Com a divulgação do resultado, Bell fica radiante e Blythe, ao contrário, vai chorar debaixo de uma árvore.

            Na final, entretanto, Bell trai a confiança do professor e, diante de um auditório cheio, aproveita a roupa romana com mangas largas para inserir uma cola. O professor Hundert, ao perceber, fica altamente decepcionado, mas não demonstra para a plateia. A saída para que Bell não seja campeão é fazer uma pergunta que não estava no livro de história que havia lhe emprestado. Assim, sem o auxílio da cola, Bell fica em segundo lugar.

            Hundert tenta ser diretor da St. Benedict’s e não consegue: é substituído por um colega mais jovem e moderno, com novas técnicas de gestão e captação de recursos para a escola. Decepcionado, pede demissão. Fora da escola, não consegue trabalhar e nem escrever seu livro. Sua vida era ensinar, era o que sabia fazer, por isso resolve voltar.

            Anos depois, recebe uma inesperada proposta: seu ex-aluno Sedgewick Bell oferece uma grande quantia em dinheiro à escola para que o professor Hundert participe de uma revanche do concurso Senhor Júlio César em um luxuoso hotel. Mas era um jogo político: Bell convidou todos os antigos colegas de classe para lançar sua candidatura ao Senado, pois seu pai havia morrido e ele queria assumir seu lugar. A revanche era um pretexto para reunir pessoas influentes e contar com seu apoio.

            Mais uma vez, quando estava fazendo as perguntas, Hundert percebe que Bell está colando, agora através do uso de um ponto eletrônico no ouvido. Após o ocorrido, confrontado pelo professor, Bell assim justificou sua atitude: “Eu vivo em um mundo real onde as pessoas fazem o que precisam fazer para conseguir o que querem. Se estão mentindo, se estão traindo, então que assim seja”. 

Entretanto, o evento serviu para uma reparação: o professor Hundert vai falar com o rapaz que desclassificara anos atrás e lhe conta o ocorrido, reconhecendo que errou. O antigo aluno o perdoa e, no início de mais um ano letivo, leva seu filho para estudar com o antigo mestre. 

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Trecho do artigo “Saberes da Docência: Entre o Cinema e a Literatura” escrito pela minha irmã Isabela Gonçalves, doutoranda pela UFS (Universidade Federal de Sergipe).

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