terça-feira, 12 de abril de 2016

O Silêncio Branco


A Nossa Garça

Penso que têm nostalgia de mar estas garças pantaneiras.
 São viúvas de Xaraés?
 Alguma coisa em azul e profundi​dade lhes foi arrancada.
 Há uma sombra de dor em seus voos.
Assim, quando vão de regresso aos seus ninhos,
enchem de entardecer os campos e os homens.

Sobre a dor dessa ave há uma outra versão,
que eu sei.
 É a de não ser ela uma ave canora.
Pois
que só grasna
 — como quem rasga uma palavra.

De cantos portanto não é que se faz a beleza desses pássaros.
 Mas de cores e movimentos.
Produzem no céu iluminuras.
 E propõem es​culturas no ar.

A Elegância e o Branco devem muito às garças.
Chegam de onde a beleza nasceu?
Nos seus olhos nublados
eu vejo a flora dos corixos.

Insetos de camalotes florejam de suas rêmiges.
E andam pregadas em suas carnes larvas de sapos.
Aqui seu voo adquire raízes de brejo.
Sua arte de ver caracóis nos escuros da lama é um dom de bran​cura.
À força de brancuras a garça se escora em versos com lodo?

(Acho que estou querendo ver coisas demais nestas garças.
 Insinuando contrastes — ou conciliações?
 — entre o puro e o impuro etc. etc.
Não estarei impregnando de peste humana esses passarinhos?
 Que Deus os livre!)

Manoel de Barros



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