terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Amor Fora de Hora




"Amor Fora de Hora" é o nome de um romance de Katarina Mazetti. Li-o faz alguns dias e ele me levou a refletir sobre qual a possibilidade de um relacionamento amoroso dá certo entre pessoas completamente diferentes.

Já no começo da história, o encontro se dá em um lugar completamente inusitado: um cemitério. Dois túmulos vizinhos, mas muito diferentes: um tem apenas uma pedra pequena e sóbria com o nome do falecido. O outro, uma lápide de mármore branco com inscrições em ouro, anjos, pássaros e até uma caveira com uma foice. Além disso, sobre o túmulo, há um verdadeiro jardim, enquanto no outro não há sequer uma rosa.

Dois enlutados recentes: uma mulher que perdeu o marido em um acidente e um homem que perdeu a mãe. A primeira impressão que um tem do outro não é das melhores. Ambos acabam sentando-se no mesmo banco, mas não se sentem à vontade e a primeira impressão em relação à aparência do outro é totalmente negativa. Ele a acha uma mulher bege, desbotada, sem atrativos; ela o vê como  um camponês grosseiro, aparência de um lenhador, com um cheiro estranho e sem dois dedos na mão esquerda...

Um incidente, em um certo dia, provocou o sorriso de ambos...
"E o sol e morango silvestres, 
o canto dos pássaros 
e a água reluzente das lagoas 
estavam no sorriso dele. 
Entre eles passou um arco de luz..."

No Dia de Todos os Santos ele foi ao cemitério e a encontrou saindo de lá. Seguiu-a com uma vela e uma coroa de flores nas mãos, atravessou metade da cidade sob olhares curiosos até à biblioteca, onde ela trabalhava. Não teve coragem de entrar com objetos tão estranhos, mas voltou a procurá-la depois de alguns dias, e a  convidou para irem juntos ao cemitério. Acabaram almoçando juntos e ele se descobriu apaixonado por ela. Como era o aniversário de Desirée, a nossa protagonista, ela acabou ganhando de Benny, o nosso herói, além do almoço, um par de brincos do Mickey, um sabonete em forma de borboleta, uma meia-calça lilás, um pôster de um casal apaixonado dentro de uma concha, uma bola vermelha brilhante, um gorro tão feio quanto o dele e uma gaita. Presentes que destoavam completamente do gosto dela mas, estranhamente, ela ficou muito, muito feliz...

Era o início de uma paixão avassaladora...e da descoberta de mundos completamente diferentes...enquanto ela morava em um elegante apartamento, cercada de livros, ele lidava duramente com o dia-a-dia de uma fazenda, com a ordenha de vacas e morava numa casa antiga, sem o mínimo conforto...

Como conciliar as duas realidades?! Quais eram os sonhos e expectativas de cada um em relação a um companheiro?! Quanto cada um estaria disposto a ceder?! Ou só um deveria fazer concessões e adaptar-se à vida do outro?! Até que ponto poderiam negociar e conviver com as diferenças?! Ele precisava de uma dona de casa, alguém que cozinhasse para ele e que ainda estivesse disposta ajudá-lo no trabalho da fazenda. Ela achava que pães davam em árvores.... (Dizem que o amor se conquista pelo estômago, mas o que fazer se só se sabe lidar com um abridor de latas?)

Até quando o amor seria capaz de contornar as diferenças, de aparar as arestas?! Valeria a pena abandonar sonhos, projetos, modo de vida para viver um grande amor?! Sim, porque grandes amores não acontecem todos os dias....

É isso que Desirée e Benny terão que descobrir e decidir. Assim com Salami e Sulamita, do poema "A Via Láctea", de  Zacharias Topelius, que se amavam, mas que moravam em estrelas distantes e que, por causa desse enorme amor, ele teve que construir uma ponte de estrelas pelo universo, eles terão que encontrar um caminho para unir seus dois mundos tão antagônicos.

Essa história me fez lembrar de duas músicas: Eduardo e Mônica (Legião Urbana) e Catavento e Girassol (Leila Pinheiro). A letra desta última música fala de duas coisas que giram, mas uma é movido pelo vento, a outra é movido pelo sol. São energias diferentes, visões diferentes, realidades diferentes...

A pergunta é: um grande amor supera todas as adversidades, todas as diferenças, todos os obstáculos?! É possível adaptar-se a realidades opostas?! Ou o melhor caminho é encontrar alguém com quem comunga-se dos mesmos objetivos, que tem sonhos e modo de ver o mundo parecidos?! Amar é mesmo olharem ambos na mesma direção?!

Um beijo para todos e uma ótima semana!!!!

Com carinho

Isabel

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