Olha,
Será que ela é moça?
Será que ela é triste?
Será que é o contrário?
Será que é pintura o rosto da atriz?
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida
Olha,
Será que é de louça?
Será que é de éter?
Será que é loucura?
Será que é cenário a casa da atriz?
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida
Sim, me leva para sempre Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Ah, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz
Olha,
Será que é uma estrela?
Será que é mentira? [mentira. . mentira. . mentira]
Será que é comédia?
Será que é divina a vida da atriz?
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se um arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida.
Chico Buarque e Edu Lobo
A Mulher Na Canção de Chico Buarque
A Mulher Idealizada
Nesta belíssima canção, uma obra-prima, uma joia musical, Chico faz refência a um grande amor da literatura universal: Beatriz, a amada de Dante Alighieri. É ela quem o conduz e lhe mostra o Paraíso. As referências a esta personagem são claras na canção: "Se ela dança no sétimo céu.../éter/arranha-céu/paredes feitas de giz/Sim, me leva para sempre, Beatriz/Me ensina a não andar com os pés no chão/estrela/comédia/divina/arcanjo..."
Beatriz foi o grande amor da vida de Dante Alighieri. Ele a conheceu quando ela tinha apenas nove anos. Apenas viu-a e, desde então teve por ela uma paixão platônica. Nove anos depois viu-a novamente e apenas cumpimentou-a. Beatriz faleceu aos vinte e cinco anos (1265-1290), sem que Dante pudesse ter declarado o seu amor a ela. Depois da morte da sua musa, ele passou por um período de bebedeira e devassidão e nunca se recompôs desta perda. Casou-se e deu à sua filha o nome de Beatriz.
Em sua obra mais famosa, "A Divina Comédia", Dante reencontra-a no Paraíso, e ela o guia na jornada pelos dez céus que compõem o Paraíso, segundo a visão do autor.
O amor, que não pôde ser realizado em vida, encontra na eternidade a sua realização e plenitude.
Abaixo, um soneto escrito por Dante, que fala do seu amor por Beatriz de uma forma cortês, tal como acontecia nas cantigas de amor da época medieval.
Soneto da Vida Nova
Tão discreta e gentil que me afigura
ao saudar, quando passa, a minha amada,
que a língua não consegue dizer nada
e a fitá-la, o olhar não se aventura.
Ela se vai sentindo-se louvada
envolta de modéstia nobre e pura.
Parece que do céu essa criatura
para atestar milagre foi baixada.
Ao que a contempla infunde tal prazer,
pelos olhos transmite tal doçura,
que só quem prova pode compreender.
E assim, parece, o seu
semblante inspira
um delicado espírito de amor
que vai dizendo ao coração: suspira.
Se
acaso me quiseres,
Sou dessas mulheres
Que só dizem "sim!",
Por uma coisa à toa,
Uma noitada boa,
Um cinema, um botequim.
E, se
tiveres renda
Aceito uma prenda,
Qualquer coisa assim,
Como uma pedra falsa,
Um sonho de valsa
Ou um corte de cetim.
E eu te
farei as vontades.
Direi meias verdades
Sempre à meia luz.
E te farei, vaidoso, supor
Que é o maior e que me possuis.
Mas na
manhã seguinte
Não conta até vinte:
Te afasta de mim,
Pois já não vales nada,
És página virada,
Descartada do meu folhetim.
Chico
Buarque
A
Mulher Nas Canções de Chico Buarque
A
Prostituta
Folhetim traz novamente o discurso feminino, mas agora de um outra figura de mulher,
uma mulher desmistificada, uma mulher marginalizada: a prostituta.
Ela
também tem voz em várias músicas de Chico Buarque, apresentando a sua visão de
mundo, os seus sonhos, esperanças e frustrações. A prostituta sempre foi e
ainda é uma figura "invisível", de uma certa forma. Atua nos
bastidores da vida, é uma "clandestina" na sociedade.
Ver o
mundo através do olhar de uma prostituta é difícil até para uma mulher... para
mim, confesso, sempre foi difícil ter essa visão. No entanto, ela aparece com
toda a sensibilidade que Chico Buarque demonstra ter nas múltiplas facetas com
que mostra a figura feminina.
Em Ana de Amsterdam,
o eu-lirico descreve a sua vida: "Sou Ana da cama, da cana, fulana,
sacana...", descreve alguns sonhos: "Eu cruzei um oceano, na
esperança de casar...", para depois cair na realidade: " Hoje sou
carta marcada/Hoje sou jogo de azar."
EmTango
de Nancy, composta em parceria com Edu Lobo, ele volta
novamente à figura da prostituta, de novo sob o prisma feminino: "Quem sou
eu para falar de amor/ Se de tanto me entregar nunca fui minha...".
EmFolhetim temos
a mulher que só diz sim e que se entrega por qualquer coisa à toa mas, no
final, é ela quem o descarta, quem "dá as cartas": "Pois já não
vales nada/ És página virada/Descartada do meu folhetim."
Ouço
os passos do descaso do seu amor,
E a dor vem de braços abertos...
Com medo tranco as portas
Das minhas esperanças e tapo os ouvidos
Para afugentar o som das lembranças...
E quando me dou por mim... - Lá estou eu!
Abrindo de mansinho uma janela
Para matar a saudade
Quero um homem
que toque minha alma,
que entre pelos meus olhos
e invada meus sonhos.
Quero que me possua inteira,
corpo e alma.
Quero sentir seus braços longos
envolvendo meu abraço,
seus lábios mudos
calando o meu silêncio
sem precisar nada dizer...
apenas me olhando
com olhos negros e úmidos
e me tomando devagar,
como o mar avança na praia,
como eu sei que tem que ser
e sei que um dia será.
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O fundo dos olhos da noite
guarda silêncios.
Esconde-se na retina
da menina que corre descalça em campo aberto.
Pálpebras cerradas, a noite emudece.
A menina com medo
faz um furo no escuro com a ponta do dedo.
Cai um pingo de luz.
O primeiro me chegou Como quem vem do florista: Trouxe um bicho de pelúcia, Trouxe um broche de ametista. Me contou suas viagens E as vantagens que ele tinha. Me mostrou o seu relógio; Me chamava de rainha. Me encontrou tão desarmada, Que tocou meu coração, Mas não me negava nada E, assustada, eu disse "não". O segundo me chegou Como quem chega do bar: Trouxe um litro de aguardente Tão amarga de tragar. Indagou o meu passado E cheirou minha comida. Vasculhou minha gaveta; Me chamava de perdida. Me encontrou tão desarmada, Que arranhou meu coração, Mas não me entregava nada E, assustada, eu disse "não". O terceiro me chegou Como quem chega do nada: Ele não me trouxe nada, Também nada perguntou. Mal sei como ele se chama, Mas entendo o que ele quer! Se deitou na minha cama E me chama de mulher. Foi chegando sorrateiro E antes que eu dissesse não, Se instalou feito posseiro Dentro do meu coração.
Chico Buarque
Terezinha
O desabrochar da sensualidade
A letra da canção "Terezinha" é inspirada na
canção folclórica "Terezinha de Jesus", numa versão mais adulta, mais
madura, que analisa não só o comportamento afetivo-sexual da mulher, como
também o desenvolvimento da maturidade afetiva masculina.
Nesta canção, há três homens que chegam em diferentes
momentos, em diferentes fases da vida do eu-lírico, que é feminino.
O primeiro chega com um bicho de pelúcia e um broche de
ametista. Representa um amor de doação, já que não lhe negava nada, procurava agradá-la,
a chamava de rainha, numa alusão a um amor inacessível, tal como ocorre nas
cantigas de amor medievais. Há, neste caso, uma nítida relação edipiana,
revelada pelo bicho de pelúcia, que remete à infância e à forma como o
eu-lírico é amada. Note-se que o verbo chamar está no
pretérito imperfeito, que revela uma ação passada, mas não acabada, o que
sugere a continuidade da relação, porém não no mesmo nível, pois o eu-lírico se
assusta com o sentimento, carregado de culpa pela ilicitude, e diz não.
O segundo representa uma atração e sentimento proibido,
ilícito, incestuoso (irmão?). É o amor tirânico, controlador, que nada traz, a
não ser uma garrafa de aguardente para o seu próprio consumo. Existe um sentido
implícito que remete à sexualidade, tanto na garrafa como no conteúdo, mas
prefiro analisar outros aspectos desta relação. Ele a encontra desa(r)mada, a
chama de perdida (prostituta) e nada lhe entrega. Novamente o verbo chamar está
no pretérito imperfeito, como no primeiro caso. E novamente ela diz não ao
sentimento que a atrai mas, ao mesmo tempo, causa aversão, medo, sentimento de
culpa...
O terceiro é alguém que ela não conhece (ainda) e que sequer
sabe como se chama. Ele nada traz, nada pergunta, nada oferece, nada pede.
Simplesmente a chama de mulher, agora no presente e com uma
relação intrínseca com o substantivo chama, que remete à
paixão, desejo, sensualidade. Ele foge do círculo edipiano e torna-se um amor
permitido, que a realiza, que toma posse do seu coração.
Terezinha de Jesus deu uma queda
Foi ao chão
Acudiram três cavalheiros
Todos de chapéu na mão
O primeiro foi seu pai
O segundo seu irmão
O terceiro foi aquele
Que a Tereza deu a mão
Terezinha levantou-se
Levantou-se lá do chão
E sorrindo disse ao noivo
Eu te dou meu coração
A cantiga popular "Terezinha de Jesus" mostra o
percurso do desenvolvimento da afetividade e da sexualidade feminina,
desenvolvida em etapas representadas pelas personagens que lhe dão a mão.
O chapéu representa a virilidade, a masculinidade. O fato de
estar na mão pode significar cortesia, cavalheirismo, gentileza e representar o
instinto de proteção do homem em relação à mulher, mas pode também ter uma
conotação implícita de sexualidade presente na relação homem-mulher, pode
representar a conquista, a corte, o convite, a escolha...
Os dois primeiros (pai e irmão) representam a fase edipiana
que acontece na infância e que faz parte do desenvolvimento e do amadurecimento
da criança, que busca, nos brinquedos e nos adultos, símbolos, modelos,
representações da vida adulta, do papel que ela irá desempenhar futuramente.
A queda está relacionada à tomada de consciência, à
puberdade, à transição da infância para a vida adulta. É a percepção do
conceito do lícito e do ilícito, o sentimento de fragilidade, a chegada do momento
de se fazer escolhas e de dar uma direção à vida. É o momento da separação, o
momento do crescimento, que traz também uma sensação de desamparo e de culpa.
São três que lhe dão a mão e ela sabe que agora terá que
deixar para trás o sentimento conflituoso, mas que a fez perceber o mundo, e
escolher "aquele", o terceiro, o elemento novo que aparece na sua
vida, trazendo novas perspectivas. Dar a mão a ele significa que agora ela está
fazendo as próprias escolhas, que está saindo do mundo de faz-de-conta, onde
era protegida, para ingressar em um novo mundo. É a simbologia da passagem para
uma nova realidade, para a vida adulta. Agora ela não é mais Terezinha
(criança), mas Tereza (mulher).
As cantigas de roda e os contos de fada estão repletos de
simbologia que representam, de maneira inconsciente e lúdica, a vida adulta, e
mostram para a criança que há enfrentamentos, que há obstáculos para que ocorra
a passagem para o mundo que a espera.
Depois da doce e angelical Beatriz, de um amor platônico e
idealizado, temos a figura de uma mulher extremamente sensual, que
descreve os seus momentos de amor sem maiores pudores, embora de uma forma
extremamente poética: "E me beija com calma e fundo/ Até a minha alma se
sentir beijada."
O eu-lírico usado por Chico é novamente feminino, e
demonstra toda a sua sensualidade de uma forma clara, não fazendo uso de
figuras, o que deixa o texto mais óbvio, dispensando maiores comentários e
interpretações.
A parceria de Alcione com Maria Bethânia ficou impecável.
Duas grandes musas reunidas numa interpretação digna da beleza da música, não
só no que se refere à letra, mas também à melodia.