domingo, 21 de fevereiro de 2016

Livros e Flores


Livros e Flores

Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?

Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?

Machado de Assis


Borboleta

 
Borboleta 

No lago zulu
O casulo de seda
Da larga lagarta
Do corpo de estrela


Virada no vento
Não vai mais rasteira
Terá vida nova
Farfalla ligeira


Farfalla ligeira
Farfalla ligeira

Farfalla ligeira
 
Levada na cor
Recorta do ar
O cheiro da flor
Ruído do mar


Mas foge de mim
Na borda da mesa
Ou pousa no prato
De louça chinesa


Farfalla ligeira
Farfalla ligeira
Farfalla ligeira

Adriana Calcanhoto







 

Delicadeza


Delicadeza é um fio cor de rosa
Indispensável em cada traço
No bordado da vida.
Delicadeza é uma ternura lilás,
Revelada em palavras
Ou ações.

Arnalda Rabelo


Cor-de-Rosa


Cor-de-rosa
Está no rosário
Na begônia
No boto solitário
Da Amazônia

Está nas margens
De dezembro
E nas coisas da infância
Que ainda me lembro

Está na roupa
Das meninas recém-nascidas,
Nas bochechas do bebê
Na pantera
Do desenho da tevê

Cor-de-rosa
É o voo do flamingo
O miolo do figo,
As tardes de domingo
O leite com groselha
A gola desbotada
De uma camisa
Vermelha e velha

Cor-de-rosa 
É cor de doce
E doce seria,
Se cor
Não fosse

Lalau e Laurabeatriz

Bem-te-vi...


Bem-te-vi...
Que terás visto?
Há quanto tempo tu avisas, bem-te-vi...
Bem-te-vi da minha infância, sempre a gritar,
sempre a contar, fuxiqueiro,
e não viste nada.
 
Meu amiguinho, preto-amarelo.
Em que ninho nasceste, de que ovinho vieste,
e quem te ensinou a dizer: Bem-te-vi?...
Bem te vejo, queria eu também cantar e repetir
para ti: Bom dia, bem te vejo, te escuto.

Canta para mim
as estorinhas do passado.
Bem-te-vi inzoneiro, malicioso e vigilante.
Conta logo o que viste, fuxiqueiro do espaço,
sempre nas folhas dos coqueiros altos...

Cora Coralina



Descaso



Ouço os passos do descaso do seu amor,
E a dor vem de braços abertos...

Com medo tranco as portas
Das minhas esperanças e tapo os ouvidos
Para afugentar o som das lembranças...

E quando me dou por mim...
  - Lá estou eu!
Abrindo de mansinho uma janela
Para matar a saudade

Valquíria Cordeiro




Metamorfose


Metamorfose

Quando a noite enfim chegou
e teu olhar pousou em mim
meu corpo incendiado
como um casulo enfeitado
de fitas e de cetim
rendeu-se ao teu encanto
e entre prazer e espanto
no teu amor renasceu
e enquanto o sol dormia
antes que chegasse o dia
num céu quase azul violeta
eu deixei de ser lagarta
para ser tua borboleta

Alice Daniel


Ever...Forever

Ever...Forever

Sim! tudo em ti é para mim sagrado,
seja o que for: eu amo o teu presente,
eu amo loucamente o teu passado,
e loucamente o teu futuro ausente.

Amo-te triste, amo-te contente,
apenas sou o teu leão domado,
e até adoro a esplêndida corrente
em que ando à sombra dos teus pés atado.

Quando o teu riso, como da alta esfera,
caísse do teu lábio, que não zomba,
não como flor que solta a primavera,

mas como um raio que das nuvens tomba,
se alguém irado te dissesse: - Fera...
Eu te diria mansamente: - Pomba...

Luís Delfino


A Bailarina


A música dança aos pés
da menina que se move
com a graça de um poema.
A ponta da sapatilha
beija o palco de leve
e os braços da bailarina
se elevam numa prece.

Álvaro Bastos


sábado, 20 de fevereiro de 2016

Ninho


"Os pássaros não estão,
esconderam-se no meu coração.
Hoje sou ninho."

Humberto Ak'abal






Encantamento

 
 
Encantamento

A tarde jogou os seus sete véus luminosos
sobre a montanha,
e ficou toda nua dançando
com sombras de crepúsculo
a escorrerem-lhe, suaves, pela pele dourada...
...e ficou toda nua dançando
na campina
ao som da harpa encantada do silêncio...

Tasso da Siveira


Crepúsculo


Crepúsculo

Alada, corta o espaço uma estrela cadente.
As folhas fremem. Sopra o vento. A sombra avança.
Paira no ar um langor de mística esperança
e de doçura triste, inexprimivelmente.

À surdina da luz irrompe, de repente,
o coro vesperal das cigarras. E mansa
E marmórea, no céu, curvo e claro, balança
entre nuvens de opala, a concha do crescente.

Na alma, como na terra, a noite nasce. É quando,
da recôndita paz das horas esquecidas,
vão, ao luar da saudade, os sonhos acordando...

E, na torre do peito, em plácidas batidas,
melancolicamente o coração chorando,
plange o réquiem de amor das ilusões perdidas.

Martins Fontes


 

Tatuagem


Tatuagem
Quero ficar no teu corpo
Feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Pra seguir viagem
Quando a noite vem

E também pra me perpetuar
Em tua escrava
Que você pega, esfrega
Nega, mas não lava

Quero brincar no teu corpo
Feito bailarina
Que logo te alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem

E nos músculos exaustos
Do teu braço
Repousar frouxa, farta,
murcha,
 Morta de cansaço

Quero pesar feito cruz
Nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem

Quero ser a cicatriz
Risonha e corrosiva
Marcada a frio,

A ferro, a fogo
Em carne viva

Corações de mãe, arpões
Sereias e serpentes
Que te rabiscam
O corpo todo
Mas não sentes

Composição: Chico Buarque e Ruy Guerra
Interpretação: Maria Rita





Crisântemos


Crisântemos

Sombrios mensageiros das violetas,
De longas e revoltas cabeleiras;
Brancos, sois o casto olhar das virgens
Pálidas que ao luar, sonham nas eiras.

 
 
Vermelhos, gargalhadas triunfantes,
Lábios quentes de sonhos e desejos,
Carícias sensuais d´amor e gozo;
Crisântemos de sangue, vós sois beijos!

 
 
Os amarelos riem amarguras,
Os roxos dizem prantos e torturas,
Há os também cor de fogo, sensuais...


Eu amo os crisântemos misteriosos
Por serem lindos, tristes e mimosos,
Por ser a flor de que tu gostas mais!

Florbela Espanca


À Flor da Pele


À Flor da Pele...

A minha alma está em blue,
e quem sabe nesse azul
eu me reencontre..
Ando tão à flor da pele...

Não sei se me revelo ou calo
se silencio ou se falo
se guardo em mim esse amor
pele em cio, alma em flor...

Ando tão à flor da pele...

Ariadna Garibaldi