Apresento a vocês uma rádio web maravilhosa, com os mais variados gêneros musicais, da mais alta qualidade. O melhor é que ela disponibiliza muitos canais, cada um com um diferente gênero musical. Dá para usá-la enquanto se navega ou como som ambiente. Vale a pena conhecer! Aproveitem e curtam bastante!
O fundo dos olhos da noite
guarda silêncios.
Esconde-se na retina
da menina que corre descalça em campo aberto.
Pálpebras cerradas, a noite emudece.
A menina com medo
faz um furo no escuro com a ponta do dedo.
Cai um pingo de luz.
O primeiro me chegou Como quem vem do florista: Trouxe um bicho de pelúcia, Trouxe um broche de ametista. Me contou suas viagens E as vantagens que ele tinha. Me mostrou o seu relógio; Me chamava de rainha. Me encontrou tão desarmada, Que tocou meu coração, Mas não me negava nada E, assustada, eu disse "não". O segundo me chegou Como quem chega do bar: Trouxe um litro de aguardente Tão amarga de tragar. Indagou o meu passado E cheirou minha comida. Vasculhou minha gaveta; Me chamava de perdida. Me encontrou tão desarmada, Que arranhou meu coração, Mas não me entregava nada E, assustada, eu disse "não". O terceiro me chegou Como quem chega do nada: Ele não me trouxe nada, Também nada perguntou. Mal sei como ele se chama, Mas entendo o que ele quer! Se deitou na minha cama E me chama de mulher. Foi chegando sorrateiro E antes que eu dissesse não, Se instalou feito posseiro Dentro do meu coração.
Chico Buarque
Terezinha
O desabrochar da sensualidade
A letra da canção "Terezinha" é inspirada na
canção folclórica "Terezinha de Jesus", numa versão mais adulta, mais
madura, que analisa não só o comportamento afetivo-sexual da mulher, como
também o desenvolvimento da maturidade afetiva masculina.
Nesta canção, há três homens que chegam em diferentes
momentos, em diferentes fases da vida do eu-lírico, que é feminino.
O primeiro chega com um bicho de pelúcia e um broche de
ametista. Representa um amor de doação, já que não lhe negava nada, procurava agradá-la,
a chamava de rainha, numa alusão a um amor inacessível, tal como ocorre nas
cantigas de amor medievais. Há, neste caso, uma nítida relação edipiana,
revelada pelo bicho de pelúcia, que remete à infância e à forma como o
eu-lírico é amada. Note-se que o verbo chamar está no
pretérito imperfeito, que revela uma ação passada, mas não acabada, o que
sugere a continuidade da relação, porém não no mesmo nível, pois o eu-lírico se
assusta com o sentimento, carregado de culpa pela ilicitude, e diz não.
O segundo representa uma atração e sentimento proibido,
ilícito, incestuoso (irmão?). É o amor tirânico, controlador, que nada traz, a
não ser uma garrafa de aguardente para o seu próprio consumo. Existe um sentido
implícito que remete à sexualidade, tanto na garrafa como no conteúdo, mas
prefiro analisar outros aspectos desta relação. Ele a encontra desa(r)mada, a
chama de perdida (prostituta) e nada lhe entrega. Novamente o verbo chamar está
no pretérito imperfeito, como no primeiro caso. E novamente ela diz não ao
sentimento que a atrai mas, ao mesmo tempo, causa aversão, medo, sentimento de
culpa...
O terceiro é alguém que ela não conhece (ainda) e que sequer
sabe como se chama. Ele nada traz, nada pergunta, nada oferece, nada pede.
Simplesmente a chama de mulher, agora no presente e com uma
relação intrínseca com o substantivo chama, que remete à
paixão, desejo, sensualidade. Ele foge do círculo edipiano e torna-se um amor
permitido, que a realiza, que toma posse do seu coração.
Terezinha de Jesus deu uma queda
Foi ao chão
Acudiram três cavalheiros
Todos de chapéu na mão
O primeiro foi seu pai
O segundo seu irmão
O terceiro foi aquele
Que a Tereza deu a mão
Terezinha levantou-se
Levantou-se lá do chão
E sorrindo disse ao noivo
Eu te dou meu coração
A cantiga popular "Terezinha de Jesus" mostra o
percurso do desenvolvimento da afetividade e da sexualidade feminina,
desenvolvida em etapas representadas pelas personagens que lhe dão a mão.
O chapéu representa a virilidade, a masculinidade. O fato de
estar na mão pode significar cortesia, cavalheirismo, gentileza e representar o
instinto de proteção do homem em relação à mulher, mas pode também ter uma
conotação implícita de sexualidade presente na relação homem-mulher, pode
representar a conquista, a corte, o convite, a escolha...
Os dois primeiros (pai e irmão) representam a fase edipiana
que acontece na infância e que faz parte do desenvolvimento e do amadurecimento
da criança, que busca, nos brinquedos e nos adultos, símbolos, modelos,
representações da vida adulta, do papel que ela irá desempenhar futuramente.
A queda está relacionada à tomada de consciência, à
puberdade, à transição da infância para a vida adulta. É a percepção do
conceito do lícito e do ilícito, o sentimento de fragilidade, a chegada do momento
de se fazer escolhas e de dar uma direção à vida. É o momento da separação, o
momento do crescimento, que traz também uma sensação de desamparo e de culpa.
São três que lhe dão a mão e ela sabe que agora terá que
deixar para trás o sentimento conflituoso, mas que a fez perceber o mundo, e
escolher "aquele", o terceiro, o elemento novo que aparece na sua
vida, trazendo novas perspectivas. Dar a mão a ele significa que agora ela está
fazendo as próprias escolhas, que está saindo do mundo de faz-de-conta, onde
era protegida, para ingressar em um novo mundo. É a simbologia da passagem para
uma nova realidade, para a vida adulta. Agora ela não é mais Terezinha
(criança), mas Tereza (mulher).
As cantigas de roda e os contos de fada estão repletos de
simbologia que representam, de maneira inconsciente e lúdica, a vida adulta, e
mostram para a criança que há enfrentamentos, que há obstáculos para que ocorra
a passagem para o mundo que a espera.
Depois da doce e angelical Beatriz, de um amor platônico e
idealizado, temos a figura de uma mulher extremamente sensual, que
descreve os seus momentos de amor sem maiores pudores, embora de uma forma
extremamente poética: "E me beija com calma e fundo/ Até a minha alma se
sentir beijada."
O eu-lírico usado por Chico é novamente feminino, e
demonstra toda a sua sensualidade de uma forma clara, não fazendo uso de
figuras, o que deixa o texto mais óbvio, dispensando maiores comentários e
interpretações.
A parceria de Alcione com Maria Bethânia ficou impecável.
Duas grandes musas reunidas numa interpretação digna da beleza da música, não
só no que se refere à letra, mas também à melodia.
Quero cores
E cantiga de anjos
Quero flores
Dálias
Margaridas
E girassóis
Quero o remanso das tardes
Nas sombras das árvores
Quero ipês amarelos floridos
E o perfume dos lírios
Quero o colo e o afago
O doce do beijo
O acorde do realejo
O mel
A semente
O anseio
Quero frutas no pomar
Maduras
E tortas de maçã
Esfriando na janela
Pitangas vermelhas
E pássaro que canta
Em manhãs de sol
E quando não houver mais nada
No final do dia
Quero a paz do teu olhar
Em melodia
E o encanto das palavras
Em um poema