quinta-feira, 14 de abril de 2016

O Encanto da Poesia de Manoel de Barros


Sombra Boa

Sombra Boa não tinha e-mail.
Escreveu um bilhete:
Maria me espera debaixo do ingazeiro
quando a lua tiver arta.
Amarrou o bilhete no pescoço do cachorro
e atiçou:
Vai, Ramela, passa!
Ramela alcançou a cozinha num átimo.
Maria leu e sorriu.
Quando a lua ficou arta Maria estava.
E o amor se fez
Sob um luar sem defeito de abril.

Manoel de Barros


quarta-feira, 13 de abril de 2016

Se achante


Se achante 

Era um caranguejo muito se achante.
Ele se achava idôneo para flor.
Passava por nossa casa
Sem nem olhar de lado.
Parece que estava montado num coche
de princesa.
Ia bem devagar
Conforme o protocolo
A fim de receber aplausos.
Muito achante demais.
Nem parou para comer goiaba.
(Acho que quem anda de coche não come
goiaba).
Ia como se fosse tomar posse de deputado.
Mas o coche quebrou
E o caranguejo voltou a ser idôneo para
mangue.

Manoel de Barros

terça-feira, 12 de abril de 2016

O Silêncio Branco


A Nossa Garça

Penso que têm nostalgia de mar estas garças pantaneiras.
 São viúvas de Xaraés?
 Alguma coisa em azul e profundi​dade lhes foi arrancada.
 Há uma sombra de dor em seus voos.
Assim, quando vão de regresso aos seus ninhos,
enchem de entardecer os campos e os homens.

Sobre a dor dessa ave há uma outra versão,
que eu sei.
 É a de não ser ela uma ave canora.
Pois
que só grasna
 — como quem rasga uma palavra.

De cantos portanto não é que se faz a beleza desses pássaros.
 Mas de cores e movimentos.
Produzem no céu iluminuras.
 E propõem es​culturas no ar.

A Elegância e o Branco devem muito às garças.
Chegam de onde a beleza nasceu?
Nos seus olhos nublados
eu vejo a flora dos corixos.

Insetos de camalotes florejam de suas rêmiges.
E andam pregadas em suas carnes larvas de sapos.
Aqui seu voo adquire raízes de brejo.
Sua arte de ver caracóis nos escuros da lama é um dom de bran​cura.
À força de brancuras a garça se escora em versos com lodo?

(Acho que estou querendo ver coisas demais nestas garças.
 Insinuando contrastes — ou conciliações?
 — entre o puro e o impuro etc. etc.
Não estarei impregnando de peste humana esses passarinhos?
 Que Deus os livre!)

Manoel de Barros