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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Noite dos Mascarados

Noite dos Mascarados

- Quem é você?
- Adivinha, se gosta de mim!
Hoje os dois mascarados
Procuram os seus namorados
Perguntando assim:

- Quem é você, diga logo...
- Que eu quero saber o seu jogo...
- Que eu quero morrer no seu bloco...
- Que eu quero me arder no seu fogo.

- Eu sou seresteiro,
Poeta e cantor.
- O meu tempo inteiro
Só zombo do amor.
- Eu tenho um pandeiro.
- Só quero um violão.
- Eu nado em dinheiro.
- Não tenho um tostão.
Fui porta-estandarte,
Não sei mais dançar.
- Eu, modéstia à parte,
Nasci pra sambar.
- Eu sou tão menina...
- Meu tempo passou...
- Eu sou Colombina!
- Eu sou Pierrô!

Mas é Carnaval!
Não me diga mais quem é você!
Amanhã tudo volta ao normal.
Deixa a festa acabar,
Deixa o barco correr.
Deixa o dia raiar, que hoje eu sou
Da maneira que você me quer.
O que você pedir eu lhe dou,
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!
Seja você quem for,
Seja o que Deus quiser!

Chico Buarque



segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Terezinha


Terezinha


O primeiro me chegou
Como quem vem do florista:
Trouxe um bicho de pelúcia,
Trouxe um broche de ametista.

Me contou suas viagens
E as vantagens que ele tinha.
Me mostrou o seu relógio;
Me chamava de rainha.

Me encontrou tão desarmada,
Que tocou meu coração,
Mas não me negava nada
E, assustada, eu disse "não".

O segundo me chegou
Como quem chega do bar:
Trouxe um litro de aguardente
Tão amarga de tragar.

Indagou o meu passado
E cheirou minha comida.
Vasculhou minha gaveta;
Me chamava de perdida.

Me encontrou tão desarmada,
Que arranhou meu coração,
Mas não me entregava nada
E, assustada, eu disse "não".

O terceiro me chegou
Como quem chega do nada:
Ele não me trouxe nada,
Também nada perguntou.

Mal sei como ele se chama,
Mas entendo o que ele quer!
Se deitou na minha cama
E me chama de mulher.

Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não,
Se instalou feito posseiro
Dentro do meu coração.

Chico Buarque

Blog de meuamorvirtual : Borboletando, Terezinha

Terezinha

A letra da canção "Terezinha" é inspirada na canção folclórica "Terezinha de Jesus", numa versão mais adulta, mais madura, que analisa não só o comportamento afetivo-sexual da mulher, como também o desenvolvimento da maturidade afetiva masculina.

Nesta canção, há três homens que chegam em diferentes momentos, em diferentes fases da vida do eu-lírico, que é feminino.

O primeiro chega com um bicho de pelúcia e um broche de ametista. Representa um amor de doação, já que não lhe negava nada, procurava agradá-la, a chamava de rainha, numa alusão a um amor inacessível, tal como ocorre nas cantigas de amor medievais. Há, neste caso, uma nítida relação edipiana, revelada pelo bicho de pelúcia, que remete à infância e à forma como o eu-lírico é amada. Note-se que o verbo chamar está no pretérito imperfeito, que revela uma ação passada, mas não acabada, o que sugere a continuidade da relação, porém não no mesmo nível, pois o eu-lirico se assusta com o sentimento, carregado de culpa pela ilicitude, e diz não.

O segundo representa uma atração e sentimento proibido, ilícito, incestuoso (irmão?). É o amor tirânico, controlador, que nada traz, a não ser uma garrafa de aguardente para o seu próprio consumo. Existe um sentido implícito que remete à sexualidade, tanto na garrafa como no conteúdo, mas prefiro analisar outros aspectos desta relação. Ele a encontra desa(r)mada, a chama de perdida (prostituta) e nada lhe entrega. Novamente o verbo chamar está no pretérito imperfeito, como no primeiro caso. E novamente ela diz não ao sentimento que a atrai mas, ao mesmo tempo, causa aversão, medo, sentimento de culpa...

O terceiro é alguém que ela não conhece (ainda) e que sequer sabe como se chama. Ele nada traz, nada pergunta, nada oferece, nada pede. Simplesmente a chama de mulher, agora no presente e com uma relação intríseca com o substantivo chama, que remete à paixão, desejo, sensualidade. Ele foge do círculo edipiano e torna-se um amor permitido, que a realiza, que toma posse do seu coração.

Blog de meuamorvirtual : Borboletando, Terezinha

Uma boa noite, fiquem com Deus!

com carinho

Isabel


Olhos nos Olhos - A Hora da Vingança


 
Olhos Nos Olhos 

Quando você me deixou, meu bem,
Me disse pra ser feliz e passar bem.
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci,
Mas depois, como era de costume, obedeci.


Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer.


Olhos nos olhos,
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais

E que venho até remoçando,
Me pego cantando, sem mais, nem por quê.


Tantas águas rolaram,
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você.


Quando talvez precisar de mim,
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim.


Olhos nos olhos,
Quero ver o que você diz.
Quero ver como suporta me ver tão feliz.


Chico Buarque

Blog de meuamorvirtual : Borboletando, Olhos nos Olhos

A Mulher Nas Canções de Chico Buarque

A Hora da Vingança

Em Olhos nos Olhos, retomamos à mulher que estava desconstruída, aos pedaços, em frangalhos, na canção "Atrás da porta", o lugar mais humilhante, de total rebaixamento, o 'fundo do poço'.

Mas eis que ela agora surge poderosa, de pé, soerguida depois de tanto sofrimento, de tanta humilhação. Há novamente um nivelamento e ela o desafia a olhá-la nos olhos e ler o que está escrito neles, assim como ela leu a mensagem de adeus nos olhos dele. Agora é a hora da vingança, o momento de mostrar que superou todo o sofrimento pelo qual passou quando foi abandonada por ele.

Será?!

Vamos observar mais atentamente o que há nas entrelinhas do discurso desta mulher que se diz refeita

Na realidade, ela não está 'podendo' tanto... simplesmente quer dar o troco, quer mostrar que está muito melhor agora, sem ele, mas, na realidade, tudo não passa de um jogo, de uma estratégia, de um plano de vingança...

Ela o desafia a olhar nos seus olhos e a dizer o que sente quando a vê tão feliz, curada, amando, remoçada...

Será?!

Sempre parto do pressuposto de que o contrário do amor é a indiferença. Se ela realmente estivesse 'curada', se ainda não o amasse tão perdida e profundamente, não precisaria provar nada. Simplesmente seguiria a sua vida, a reconstruiria ao lado de um novo amor ou, simplesmente, sozinha.

"Tantos homens me amaram, bem mais e melhor que você..." O golpe baixo para atingir a masculinidade é típico de uma mulher ofendida, traída, abandonada... e se ela foi amada e amou a tantos homens, simplesmente não amou e não foi amada por nenhum...

O estado de felicidade e superação é apenas aparente, é mais uma estratégia de vingança e, vamos reconhecer, algumas mulheres, quando amam de uma forma doentia, descontrolada, são capazes de tudo, até de olhar nos olhos e mostrar que está extremamente feliz. Ela não superou e, provavelmente, nunca vai superar esse sentimento de perda e rejeição.

Essa história, esse sentimento tão forte, tão avassalador, tão destruidor, nos remete a uma outra história: a história de Medeia, que foi capaz de matar os próprios filhos para vingar-se do marido que a abandonou...

Mas isto, bem, isto é uma outra história...

Beijos,

com carinho

Isabel

Atrás da Porta




Atrás da Porta

Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei, eu te estranhei
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei

E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
No teu peito, teu pijama
Nos teus pés ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
 
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua

Chico Buarque

photo

A Mulher na Canção de Chico Buarque

A Desprezada

Mais uma música do Chico Buarque, onde ele assume a visão pela perspectiva da mulher, onde o eu-lírico é feminino.
Nesta composição, ocorre o processo de aniquilação da mulher, que começa com "os olhos nos olhos", onde ela percebe que o olhar é de adeus. A partir daí, começa a queda, a decadência, a humilhação, o rebaixamento, de uma forma metafórica, lenta e teatral.

No primeiro momento ela o olha nos olhos - nivelamento. Depois, se agarra em seus cabelos e vai descendo: em seus pelos, seu pijama, aos seus pés, aos pés da cama. Nessa etapa, o aviltamento chega ao seu ponto máximo: sem carinho, sem coberta, no tapete atrás da porta. Passa-se a impressão de um cachorrinho, de um animalzinho abandonado e carente. É o abandono total. A partir do instante que ela se agarra aos pés da cama, nota-se a ausência do ser amado, que a abandonou de uma forma definitiva.

Começa-se então uma nova fase: a da vingança, numa nova gradação. Primeiro, ela reclama baixinho, depois começa a maldizer o lar, a sujar o nome do amado e a humilhá-lo, numa reação típica de quem ama perdidamente e se vê abandonado. É uma dor sem limites, que procura um escape, uma fuga, um alívio, na vingança.

O contrário do amor não é o ódio, é a indiferença. Todas as ações da mulher desprezada serviam apenas para chamar a atenção do seu amado, serviam apenas para mostrar-lhe, de uma maneira enviesada, pelo avesso, que ela continuava a amá-lo desesperadamente.

A continuação desta história se dá na música "Olhos nos Olhos", que será o tema do próximo post.

Abaixo, uma sequência de imagens de Pablo Picasso, que retrata como ninguém, através da decomposição, da desestruturação, a dor da mulher abandonada e profundamente ferida.

Beijos,

Isabel

Blog de meuamorvirtual : Borboletando, Atrás da Porta 2 - Elis Regina
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Folhetim


Folhetim
 
Se acaso me quiseres,
Sou dessas mulheres
Que só dizem "sim!",
Por uma coisa à toa,
Uma noitada boa,
Um cinema, um botequim.


E, se tiveres renda
Aceito uma prenda,
Qualquer coisa assim,
Como uma pedra falsa,
Um sonho de valsa
Ou um corte de cetim.


E eu te farei as vontades.
Direi meias verdades
Sempre à meia luz.
E te farei, vaidoso, supor
Que é o maior e que me possuis.


Mas na manhã seguinte
Não conta até vinte:
Te afasta de mim,
Pois já não vales nada,
És página virada,
Descartada do meu folhetim.


Chico Buarque


 Blog de meuamorvirtual : Borboletando, Folhetim


A Mulher Nas Canções de Chico Buarque


A Prostituta


 A música Folhetim traz novamente o discurso feminino nas canções de Chico Buarque, mas agora a de um outra figura de mulher, desmistificando a imagem de uma mulher marginalizada: a prostituta.


Ela também tem voz em várias músicas de Chico Buarque, apresentando a sua visão de mundo, os seus sonhos, esperanças e frustrações. A prostituta sempre foi e ainda é uma figura "invisível", de uma certa forma. Atua nos bastidores da vida, é uma "clandestina" na sociedade.


Ver o mundo através do olhar de uma prostituta é difícil até para uma mulher... para mim, confesso, sempre foi difícil ter essa visão. No entanto, ela aparece com toda a sensibilidade que Chico Buarque demonstra ter nas múltiplas facetas com que mostra a figura feminina.


Em Ana de Amsterdam, o eu-lirico descreve a sua vida: "Sou Ana da cama, da cana, fulana, sacana...", descreve alguns sonhos: "Eu cruzei um oceano, na esperança de casar...", para depois cair na realidade: " Hoje sou carta marcada/Hoje sou jogo de azar."


Em Tango de Nancy, composta em parceria com Edu Lobo, ele volta novamente à figura da prostituta, de novo sob o prisma feminino: "Quem sou eu para falar de amor/ Se de tanto me entregar nunca fui minha...".


Em Folhetim temos a mulher que só diz sim e que se entrega por qualquer coisa à toa mas, no final, é ela quem o descarta, quem "dá as cartas": "Pois já não vales nada/ És página virada/ Descartada do meu folhetim."
  
E assim temos mais uma imagem de uma mulher real, com seus dramas, suas dores, suas desilusões, sua vida à parte, descartada da sociedade.

Beijos, 


com carinho


Isabel


Blog de meuamorvirtual : Borboletando, Folhetim

Beatriz

 
 
Beatriz

Olha,
Será que ela é moça?
Será que ela é triste?
Será que é o contrário?
Será que é pintura o rosto da atriz?
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha,
Será que é de louça?
Será que é de éter?
Será que é loucura?
Será que é cenário a casa da atriz?
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Sim, me leva para sempre Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Ah, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha,
Será que é uma estrela?
Será que é mentira? [mentira. . mentira. . mentira]
Será que é comédia?
Será que é divina a vida da atriz?

Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se um arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida.

Chico Buarque e Edu Lobo

Blog de meuamorvirtual : Borboletando, Beatriz

A Mulher Na Canção de Chico Buarque 

A Mulher Idealizada

Nesta belíssima canção, uma obra-prima, uma joia musical, Chico faz referência a um grande amor da literatura universal: Beatriz, a amada de Dante Alighieri. É ela quem o conduz e lhe mostra o Paraíso. As referências a esta personagem são claras na canção:

"Se ela dança no sétimo céu.../éter/arranha-céu/paredes feitas de giz/Sim, me leva para sempre, Beatriz/Me ensina a não andar com os pés no chão/estrela/comédia/divina/arcanjo..."

Beatriz foi o grande amor da vida de Dante Alighieri. Ele a conheceu quando ela tinha apenas nove anos. Apenas viu-a e, desde então teve por ela uma paixão platônica. Nove anos depois viu-a novamente e apenas cumprimentou-a. Beatriz faleceu aos vinte e cinco anos (1265-1290), sem que Dante pudesse ter declarado o seu amor a ela. Depois da morte da sua musa, ele passou por um período de bebedeira e devassidão e nunca se recompôs desta perda. Casou-se e deu à sua filha o nome de Beatriz.

Em sua obra mais famosa, "A Divina Comédia", Dante reencontra-a no Paraíso, e ela o guia na jornada pelos dez céus que compõem o Paraíso, segundo a visão do autor.
O amor, que não pôde ser realizado em vida, encontra na eternidade a sua realização e plenitude.

Abaixo, um soneto escrito por Dante, que fala do seu amor por Beatriz de uma forma cortês, tal como acontecia nas cantigas de amor da época medieval.

Blog de meuamorvirtual : Borboletando, Beatriz

Soneto da Vida Nova

Tão discreta e gentil que me afigura
ao saudar, quando passa, a minha amada,
que a língua não consegue dizer nada
e a fitá-la, o olhar não se aventura.

Ela se vai sentindo-se louvada
envolta de modéstia nobre e pura.
Parece que do céu essa criatura
para atestar milagre foi baixada.

Ao que a contempla infunde tal prazer,
pelos olhos transmite tal doçura,
que só quem prova pode compreender.

E assim, parece, o seu semblante inspira
um delicado espírito de amor
que vai dizendo ao coração: suspira.

(tradução de Henriqueta Lisboa)

Blog de meuamorvirtual : Borboletando, Beatriz

O Meu Amor



O Meu Amor

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que me deixa maluca, quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba mal feita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios, de me beijar os seios
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz
 
Chico Buarque



A Mulher Na canção de Chico Buarque

A Mulher Sensual

Depois da doce e angelical Beatriz, de um amor platônico e  idealizado, temos a figura de uma mulher extremamente sensual, que descreve os seus momentos de amor sem maiores pudores, embora de uma forma extremamente poética: "E me beija com calma e fundo/ Até a minha alma se sentir beijada."

O eu-lírico usado por Chico é novamente feminino, e demonstra toda a sua sensualidade de uma forma clara, não fazendo uso de figuras, o que deixa o texto mais óbvio, dispensando maiores comentários e interpretações.

A parceria de Alcione com Maria Bethânia ficou impecável. Duas grandes musas reunidas numa interpretação digna da beleza da música, não só no que se refere à letra, mas também à melodia.

Uma ótima semana para todos!

Beijos, com carinho

Isabel

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Eu Te Amo



Eu Te Amo 

Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir

Ah, se ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir


Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir


Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu


Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu


Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios ainda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair


Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir.


Composição: Tom Jobim / Chico Buarque


Blog de meuamorvirtual : Borboletando, Eu Te Amo


Trouxe para vocês hoje uma belíssima música, numa parceria mais do que perfeita de compositores: o Tom e o Chico. Não poderia resultar senão nesta letra maravilhosa! Não gosto muito da interpretação do Chico, é meio tristonha, então procurei outros intérpretes. Encontrei uma linda com o Djavan e esta, com a  Zizi Possi. Ainda não a havia escutado na voz dela e, na minha concepção, esta é, sem dúvida, a melhor interpretação.




 E, para o nosso deleite, imagens masculinas, já que na letra da música o eu-lírico é masculino e sofre por amor.


Blog de meuamorvirtual : Borboletando, Eu Te Amo



Beijos


com carinho

Isabel


Blog de meuamorvirtual : Borboletando, Eu Te Amo

sábado, 30 de janeiro de 2016

Valsinha


Valsinha

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar

E então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça, foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu, e o dia amanheceu em paz

Composição: Vinicius de Moraes e Chico Buarque

 Blog de meuamorvirtual : Borboletando, Valsinha
 
Vento Novo
 
Estava enrolada
em teias e traças,
debaixo da escada,
lá no subsolo
da casa fechada.

Começava a tomar ares de desgraça.
Manchada do tempo,
fenecia
a esperar que um dia
alguma coisa acontecesse.

Antes que se perdesse completamente,
sentiu passar um vento cor-de-rosa.

Toda prosa, espanou a bruma,
pintou os lábios
e sem vergonha nenhuma
caprichou no recorte do decote.

A felicidade volta à praça
cheia de dengo e de graça,
com perfume novo no cangote.

Flora Figueiredo

Blog de meuamorvirtual : Borboletando, Valsinha

Tanto a música do Chico como o poema da Flora Figueiredo
Falam da possibilidade de mudança, de recomeço.

Mas, para isso, é necessário que se tome uma decisão.

Depois, é preciso que haja atitude, ação.

Ficar em casa com o vestido cheirando a guardado
Ou ficar enrolada em teias e traças
Não fará com que as mudanças aconteçam,
Com que os sonhos se realizem.

Hora, então, de sentir o vento cor-de-rosa,
Caprichar no decote,
Colocar perfume novo no cangote,
Sair para a praça
E contagiar a cidade
Com a sua felicidade...

 
Beijos,

Isabel