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quinta-feira, 14 de abril de 2016

Os rios começam a dormir


Rios começam a dormir, pela orla.
Um dom de entardecer percorre as águas.
Nas entranhas dessas lagoas
os sapos tocam violas
a quinze metros do arco-íris
o sol é cheiroso
A ciência ainda não pode
provar o contrário.

Manoel de Barros



Sabastião


Sabastião

Todos eram iguais perante a lua
Menos só Sabastião, 
mas era diz-que louco daí pra fora
— Jacaré no seco anda? 
— preguntava.

Meu amigo Sabastião
Um pouco louco
Corria divinamente de jacaré. 
Tinha um que era da sela dele somentes
E estranhava as pessoas.

Naquele jacaré ele apostava corrida 
com qualquer peixe
Que esse Sabastião era ordinário!

Desencostado da terra
Sabastião
Meu amigo
Um pouco louco.

Manoel de Barros 

O Encanto da Poesia de Manoel de Barros


Sombra Boa

Sombra Boa não tinha e-mail.
Escreveu um bilhete:
Maria me espera debaixo do ingazeiro
quando a lua tiver arta.
Amarrou o bilhete no pescoço do cachorro
e atiçou:
Vai, Ramela, passa!
Ramela alcançou a cozinha num átimo.
Maria leu e sorriu.
Quando a lua ficou arta Maria estava.
E o amor se fez
Sob um luar sem defeito de abril.

Manoel de Barros


quarta-feira, 13 de abril de 2016

Se achante


Se achante 

Era um caranguejo muito se achante.
Ele se achava idôneo para flor.
Passava por nossa casa
Sem nem olhar de lado.
Parece que estava montado num coche
de princesa.
Ia bem devagar
Conforme o protocolo
A fim de receber aplausos.
Muito achante demais.
Nem parou para comer goiaba.
(Acho que quem anda de coche não come
goiaba).
Ia como se fosse tomar posse de deputado.
Mas o coche quebrou
E o caranguejo voltou a ser idôneo para
mangue.

Manoel de Barros