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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Leveza


Leveza

Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.

E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.

E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto, 
mais leve.
 
E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.
 
E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.

Cecília Meireles


Bordados


Com agulhas de prata
de brilho tão fino
bordai as sedas do vosso destino.
 
Bordai as tristezas
de todos os dias
e repentinamente as alegrias.
 
Que fiquem as sedas
muito primorosas
mesmo com lágrimas presas nas rosas.
 
Com agulhas de prata
de brilho tão frio...
ai, bordai as sedas,
sem partir o fio!


Cecília Meireles


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Das Palavras Aéreas


Das Palavras Aéreas

Ai, palavras, ai, palavras,
Que estranha potência, a vossa!

Ai, palavras, ai, palavras,
Sois de vento, ides no vento,
No vento que não retorna,
E, em tão rápida existência,
Tudo se forma e transforma!
Sois de vento, ides no vento,
E quedais, com sorte nova!

Ai, palavras, ai palavras,
Que estranha potência, a vossa!
Todo o sentido da vida
Principia à vossa porta;
O mel do amor cristaliza
Seu perfume em vossa rosa;
Sois o sonho e sois a audácia,
Calúnia, fúria, derrota...

A liberdade das almas,
Ai! com letras se elabora...
E dos venenos humanos
Sois a mais fina retorta:
Frágil, frágil como o vidro
E mais que o aço poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
Pelo vosso impulso rodam...

Cecília Meireles



terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Voo


Voo

Alheias e nossas as palavras voam.

Bando de borboletas multicores, as palavras voam.

Bando azul de andorinhas, bando de gaivotas brancas,
as palavras voam.

Voam as palavras como águias imensas.

Como escuros morcegos, como negros abutres,
as palavras voam.

Oh! Alto e baixo, em círculos e retas em cima de nós,
em redor de nós as palavras voam.

E às vezes pousam.

Cecília Meireles


sábado, 6 de fevereiro de 2016

Uma Flor Voava

Blog de meuamorvirtual :Borboletando, Uma Flor Voava

Uma Flor Voava

Uma flor voava.

Por mais que pareça impossível,
uma flor voava.

Uma flor amarela ia voando,
e levava ao lado o seu botão fechado.
Parecia uma jovem graciosa
com sua bolsinha no braço.

Voava a flor amarela,
no ar indefinido.

E a pequena flor amarela voava,
solta, levíssima,
por um rumo secreto,
de alma evadida.

Cecília Meireles

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Beijos, tenham todos um lindo dia!

Isabel



domingo, 31 de janeiro de 2016

Vimos a Lua

Blog de meuamorvirtual :Borboletando, Vimos a Lua

Vimos a Lua

Vimos a lua nascer, na tarde clara.

Orvalhavam diamantes, as tranças aéreas das ondas
e as janelas abriam-se para florestas cheias de cigarras.

Vimos também a nuvem nascer no fim do oeste.
Ninguém lhe dava importância.
Parecia uma pena solta – diziam.
Uma flor desfolhada.

Vimos a lua nascer, na tarde clara.

Subia com seu diadema transparente,
vagarosa, suportando tanta glória.

Mas a nuvem pequena corria pelo céu.
Reuniu exércitos de lã parda,
levantou por todos os lados o alvoroço da sombra.

Quando quisemos outra vez luar,
ouvimos a chuva precipitar-se nas vidraças,
e a floresta debater-se com o vento.

Por detrás das nuvens, porém,
sabíamos que durava, gloriosa e intacta, a lua.

Cecília Meireles

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Amo esta poesia da Cecília Meireles. Nela, a lua e a nuvem são personificadas e apresentam comportamentos bem humanos: vaidade, inveja, competição...

A lua, linda, soberana, surge no céu, e vai subindo lentamente, para que todos a observem. Rainha absoluta, reina no fim da tarde, em todo o seu esplendor...

A nuvem também surge no fim do oeste. Pequena, escura, insignificante. Ninguém lhe dava importância. Enciumada, ressentida com o brilho da lua, decide que, se não podia brilhar como ela, podia encobri-la.

E assim fez: declarou guerra, reuniu um exército de lãs pardas, encobriu tudo, escureceu o céu, chamou o vento, fez uma arruaça, muito barulho, raios, trovões, tempestade...

E a lua?! Acima das nuvens continuava gloriosa e intacta. Sabia que logo a tempestade iria passar e ela voltaria a brilhar...

E assim é na vida...

Quantas nuvens pardas, invejosas, incompetentes, tentam encobrir o brilho de quem tem talento, de quem tem capacidade, de quem se esforça para brilhar por mérito próprio?! E essas nuvens causam alvoroço, desavenças, mal-estar... deixam o céu encoberto por um tempo. Mas quem tem luz, logo voltará a brilhar!

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Beijos para todos, tenham um ótimo dia!

Com carinho

Isabel

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Pássaro da Lua

Blog de meuamorvirtual :Borboletando, Pássaro da Lua

Pássaro da Lua

Pássaro da lua,
que queres cantar,
nessa terra tua,
sem flor e sem mar?

Nem osso de ouvido
Pela terra tua.

Teu canto é perdido,
pássaro da lua...
Pássaro da lua,
por que estás aqui?

Nem a canção tua
precisa de ti!

Cecília Meireles

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Bom dia, queridos amigos!

Pequena Canção, de Cecília Meireles, é um dos poemas que compõem o livro Vaga Música, publicado em 1942. Não é à toa que o livro tem este nome, pois a maioria dos poemas é composta em forma de canção, que privilegia a sonoridade das palavras e o ritmo, o cadenciamento entre sílabas forte e fracas, deixando-o musical.

O poema inicia-se com um questionamento: como o pássaro da lua pode cantar se em sua terra (Lua) não há flor nem mar?! O primeiro aspecto, então, é a negação da inspiração, a negação do motivo para o pássaro cantar.

A segunda estrofe contém a segunda negação: não há para quem o pássaro cantar. Sendo assim, seu canto é perdido. Temos aí um jogo de palavras que explora a sonoridade e o significado da palavra osso, que também pode ter o sentido de ouço: "nem osso de ouvido"  refere-se aos ossos que o ouvido tem, dando a entender que o pássaro da lua não tem ninguém  para ouvi-lo. Portanto, perde-se a razão do canto e acentua-se a solidão do pássaro.

Na terceira estrofe temos a negação da própria razão de ser do pássaro. A canção, sem ter aquilo de que falar e sem ter para quem falar, não precisa de um cantor. É a negação total, numa situação de desolamento, em que não há nem flor nem mar nem ouvido e nem a razão de ser do pássaro, que é cantar. Ninguém precisa dele, nem mesmo a canção.

Indiferente a todas as razões, o pássaro da lua simplesmente canta. E, por estas mesmas razões, seu canto é mais puro, mais belo, mais cristalino!

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Este poema nos remete a um outro, da própria Cecília:

Inscrição na Areia

O meu amor não tem
importância nenhuma.
Não tem o peso nem
de uma rosa de espuma!

Desfolha-se por quem?
Para quem se perfuma?

O meu amor não tem
importância nenhuma. 

Cecilia Meireles 






Beijos, um ótimo final de semana para todos!

com carinho

Isabel

Blog de meuamorvirtual : Borboletando, Pássaro da Lua