sexta-feira, 1 de junho de 2012

A Mulher na Canção de Chico Buarque - Terezinha de Jesus



Terezinha de Jesus


Terezinha de Jesus deu uma queda
Foi ao chão
Acudiram três cavalheiros
Todos de chapéu na mão

O primeiro foi seu pai
O segundo seu irmão
O terceiro foi aquele
Que a Tereza deu a mão

Terezinha levantou-se
Levantou-se lá do chão
E sorrindo disse ao noivo
Eu te dou meu coração



A cantiga popular "Terezinha de Jesus" mostra o percurso do desenvolvimento da afetividade e da sexualidade feminina, desenvolvida em etapas representadas pelas personagens que lhe dão a mão.


O chapéu representa a virilidade, a masculinidade. O fato de estar na mão pode significar cortesia, cavalheirismo, gentileza e representar o instinto de proteção do homem em relação à mulher, mas pode também ter uma conotação implícita de sexualidade presente na relação homem-mulher, pode representar a conquista, a corte, o convite, a escolha...

Os dois primeiros (pai e irmão) representam a fase edipiana que acontece na infância e que faz parte do desenvolvimento e do amadurecimento da criança, que busca, nos brinquedos e nos adultos, símbolos, modelos, representações da vida adulta, do papel que ela irá desempenhar futuramente.

A queda está relacionada à tomada de consciência, à puberdade, à transição da infância para a vida adulta. É a percepção do conceito do lícito e do ilícito, o sentimento de fragilidade, a chegada do momento de se fazer escolhas e de dar uma direção à vida. É o momento da separação, o momento do crescimento, que traz também uma sensação de desamparo e de culpa.

São três que lhe dão a mão e ela sabe que agora terá que deixar para trás o sentimento conflituoso, mas que a fez perceber o mundo, e escolher "aquele", o terceiro, o elemento novo que aparece na sua vida, trazendo novas perspectivas. Dar a mão a ele significa que agora ela está fazendo as próprias escolhas, que está saindo do mundo de faz-de-conta, onde era protegida, para ingressar em um novo mundo. É a simbologia da passagem para uma nova realidade, para a vida adulta. Agora ela não é mais Terezinha (criança), mas Tereza (mulher).

As cantigas de roda e os contos de fada estão repletos de simbologia que representam, de maneira inconsciente e lúdica, a vida adulta, e mostram para a criança que há enfrentamentos, que há obstáculos para que ocorra a passagem para o mundo que a espera.



Beijos para todos!

Isabel

terça-feira, 29 de maio de 2012

A Mulher na Música de Chico Buarque




O Meu Amor


O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que me deixa maluca, quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba mal feita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios, de me beijar os seios
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz


Chico Buarque



A Mulher Na canção de Chico Buarque

A Mulher Sensual

Depois da doce e angelical Beatriz, de um amor platônico e  idealizado, temos a figura de uma mulher extremamente sensual, que descreve os seus momentos de amor sem maiores pudores, embora de uma forma extremamente poética: "E me beija com calma e fundo/ Até a minha alma se sentir beijada."
O eu-lírico usado por Chico é novamente feminino, e demonstra toda a sua sensualidade de uma forma clara, não fazendo uso de figuras, o que deixa o texto mais óbvio, dispensando maiores comentários e interpretações.
A parceria de Alcione com Maria Bethânia ficou impecável. Duas grandes musas reunidas numa interpretação digna da beleza da música, não só no que se refere à letra, mas também à melodia.

Uma ótima semana para todos!

Beijos, com carinho

Isabel


sexta-feira, 25 de maio de 2012

Desejos



Quero

Quero cores
E cantiga de anjos
Quero flores
Dálias
Margaridas
E girassóis
Quero o remanso das tardes
Nas sombras das árvores
Quero ipês amarelos floridos
E o perfume dos lírios
Quero o colo e o afago
O doce do beijo
O acorde do realejo
O mel
A semente
O anseio
Quero frutas no pomar
Maduras
E tortas de maçã
Esfriando na janela
Pitangas vermelhas
E pássaro que canta
Em manhãs de sol
E quando não houver mais nada
No final do dia
Quero a paz do teu olhar
Em melodia
E o encanto das palavras
Em um poema


Lou Witt


quarta-feira, 23 de maio de 2012

Palavras


Palavras
 
Palavras são pássaros que pousam
nas páginas que alguém lê
Palavras são bálsamos que curam
a dor que alguém sente.
Palavras são flores que perfumam
São cores que alucinam.

Mas muitas vezes
palavras são flechas
que ferem sem dó.
São fogos que queimam
deixando corações em pó.

Palavras às vezes são
palavras que não deveriam ter sido.

Lou Witt




terça-feira, 22 de maio de 2012

Pouco a Pouco



Entrega


Não me entrego de uma vez
vou pouco a pouco
como loba rondando a casa
ou lua esquecida acesa
nas primeiras horas da manhã
vou passo a passo
como poesia rondando a vida
vou lentamente
como pássaro que aprende o ar
e de repente sou loba sou lua
sou poesia e pássaro derramado

Roseana Murray


Era Uma Vez...




Conto de Fadas

Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o unguento
Com que sarei a minha própria dor.


Os meus gestos são ondas de Sorrento...
Trago no nome as letras de uma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...


Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é d'oiro, a onda que palpita.


Dou-te comigo o mundo que Deus fez!
- Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A Princesa do conto: "Era uma vez..."


Florbela Espanca



Palavras


Palavras
 
Se me disseres que me amas, acreditarei,
mas se escreveres que me amas,
acreditarei ainda mais.
Se me falares da tua saudade, entenderei,
mas se escreveres sobre ela,
sentirei junto contigo.
Se a tristeza vier a te consumir e me contares, eu saberei,
mas se a descreveres no papel, o seu peso será menor.

... E assim são as palavras escritas;
possuem um magnetismo especial,
libertam, acalantam, invocam emoções.
Elas possuem a capacidade de em poucos minutos
cruzar mares, saltar montanhas,
atravessar desertos intocáveis.
Muitas vezes perde-se o autor,
mas a mensagem sobrevive ao tempo,
atravessando séculos e gerações.
Elas marcam um momento que será eternamente
revivido por todos aqueles que a lerem.

Faça amor com as palavras, mate saudades, peça perdão,
aproxime-se, recupere o tempo perdido, insinue-se,
alegre alguém, dê simplesmente um bom dia,
faça um carinho especial.
Use-a a todo instante, de todas as maneiras;
sua força é imensurável.
Não esqueça que quem escreve,
constrói um castelo,
e quem lê, passa a habitá-lo.

Silvana Duboc



domingo, 20 de maio de 2012

Contradições


Contraste

Você é fogo, a chama mais ardente,
Semente a germinar em pleno cio,
É luz que o sol espalha suavemente,
É toque de prazer, é arrepio...

É água cristalina da nascente
Que corre lentamente para o rio,
Paixão que vem assim, tão de repente,
Deixando o coração por quase um fio.

Você é o meu passado mais presente...
Calor a me aquecer durante o frio,
Loucura que enlouquece loucamente!

Você é como um sonho inocente,
É brisa mansa em manhã de estio
E muitas vezes temporal fremente!

Antonio Manoel Abreu Sardenberg




Me encante...





Me encante

Me encante da maneira que você quiser, como você souber.
Me encante, para que eu possa me dar…
Me encante nos mínimos detalhes.
Saiba me sorrir: aquele sorriso malicioso,
Gostoso, inocente e carente.

Me encante com suas mãos,
Gesticule quando for preciso.
Me toque, quero correr esse risco.
Me acarinhe se quiser…
Vou fingir que não entendo,
Que nem queria esse momento.

Me encante com seus olhos…
Me olhe profundo, mas só por um segundo.
Depois desvie o seu olhar.
Como se o meu olhar,
Não tivesse conseguido te encantar…
E então, volte a me fitar.
Tão profundamente, que eu fique perdido.
Sem saber o que falar…

Me encante com suas palavras…
Me fale dos seus sonhos, dos seus prazeres.
Me conte segredos, sem medos,
E depois me diga o quanto te encantei.
Me encante com serenidade…
Mas não se esqueça também,
Que tem que ser com simplicidade,
Não pode haver maldade.

Me encante com uma certa calma,
Sem pressa. Tente entender a minha alma.
Me encante como você fez com o seu primeiro namorado…
Sem subterfúgios, sem cálculos, sem dúvidas, com certeza.
Me encante na calada da madrugada,
Na luz do sol ou embaixo da chuva….

Me encante sem dizer nada, ou até dizendo tudo.
Sorrindo ou chorando. Triste ou alegre…
Mas, me encante de verdade, com vontade…
Que depois, eu te confesso que me apaixonei,
E prometo te encantar por todos os dias…
Pelo resto das nossas vidas!!!

Pablo Neruda